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sexta-feira, 23 de abril de 2010

O menino assassinado.

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Sérgio dos Santos Sena, ou Ijácio (como era conhecido por todos, já que o nome "Sérgio" só apareceu quando ele foi registrado, aos 18 anos) era um rapaz do bem. Nos seus 24 anos de idade fez besteiras e cometeu erros como todo mundo faz, mais ou menos. Mas fez muitos amigos entre todos que lhe conheciam.

Ijácio (me recuso a chamar de Sérgio, nome pelo qual ninguém, nem mesmo sua mãe, lhe chamava) não conseguiu ser alfabetizado embora ainda cursasse um supletivo noturno. Filho de uma família pobre, mas trabalhadora, cresceu sem jamais ser realmente diagnosticado pelo provável retardamento mental que aparentava ter e lhe dava a atitude, a mentalidade e a transparência de um menino de 7, talvez 8, anos de idade. E era como um menino assim, que era querido e tratado por todos. Até a quarta-feira passada (dia 21 de abril, dia de Tiradentes - aquele que morreu pela nossa liberdade que um dia, mesmo tardia, há de chegar). Nesta quarta-feira, mataram este menino.

Ijácio foi assassinado pela bandidagem que existe e resiste dentro da própria Polícia Militar. Depois de um dia de trabalho - ele lavou os carros aqui de casa, levou nosso cachorro para a clínica veterinária e fez a faxina da casa de uma vizinha- ele resolveu cortar cabelo numa barbearia do bairro em Salvador onde ele morava, vizinho dos meus pais. Na saída do salão, ainda cheio do cabelo cortado sobre os ombros e levando para a mãe viúva 200 reais que ele havia recebido pelos trabalhos do dia, ele foi abordado por essa viatura da polícia. Os policiais, que mais cedo haviam participado de uma troca de tiros com bandidos na região, o confundiram como um desses outros. Ijácio foi empurrado para dentro da viatura, sob os olhares dos transeuntes. Levou socos e pontapés e não foi mais visto vivo.

Eunice Mendes, professora de escola pública, que teve um aluno assassinado também pela polícia, na mesma semana disse, maravilhosa e tristemente, para os jornais: "Quando matam uma pessoa do bem, os jovens que estão na criminalidade pensam: Ele era bom e morreu do mesmo jeito."

O corpo de Ijácio foi encontrado no Instituto Médico Legal, dois tiros (um na cabeça, outro no coração). Seu rosto desfigurado das pancadas, seu dinheiro desaparecido, junto com o celular e seus documentos. Aqueles que se vestem como policiais e o levaram, ainda alegaram que Ijácio portava arma e drogas e havia trocado tiros com eles. Ijácio nem fumava, nem bebia...

Mesmo assim, assassinaram este menino, um dos tantos que eu vi crescer.
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