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quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Sobre o 'racismo' na conta de luz.


Toda essa história n passa de um terrível e perigoso mal-entendido que, por sua carga emocional, tomou proporções maiores do que eu jamais poderia imaginar. Já fui a público, já admiti o erro de julgamento na representação do rapaz que faz o gato como negro, a Coelba já se explicou. Já apresentamos o conjunto da obra que representa o negro com toda justiça e mostramos que tal análise dos acusadores é coerente, porém está descontextualizada e, por gerar tal movimento - inclusive violento - põe em risco a imagem de um trabalho que busca combater todo tipo de preconceito e discriminação.

Quem conhece o Fala Menino! sabe como represento o negro em minhas histórias (sem o esteriotipo do marginal, do pobre, etc). Mas, não importando para quem me acusa de racismo que, no mesmo mês (este mês de setembro), que a tal tira do gato foi publicada, uma OUTRA tira estampava-se em metade das contas de luz do estado, na qual o Edinho, menino negro, ensina a um pedreiro branco como proteger-se de riscos desnecessários. Acusam a mim e a Coelba de racismo, mas não se deram ao trabalho de perceber na TELEVISÃO os 6 desenhos animados estrelados pelo mesmo EDINHO, em que o menino ensina a turma do Lucas as noções de segurança com eletricidade nem, sequer, conferir o folder, ilustrado por mim e distribuído pela mesma Coelba (imagem em anexo), sobre segurança, desde março passado, no qual a situação do gato é representada, dessa vez, com um branco cometendo o delito e o menino negro tentando salvá-lo. Essas representações não merecem comentário positivo pois contrariam a argumentação parcial e belicosa. Nunca qualquer brasileiro que se apresenta como ‘negro’ no nosso país mestiço, veio a público comentar como as crianças ‘negras’ do Fala Menino! (Winnie, Martin, Guiga, Edinho, Diogo…) são representadas com o mesmo carinho, respeito e tridimensionalidade de qualquer outra da turma e em situações comuns a quaisquer meninos de classe média ou alta (no caso da Winnie e do Martin que são filhos de DIPLOMATA, conhecem o mundo todo e tem tudo q o dinheiro pode comprar), totalmente independentemente da cor de suas peles. Nem leram o meu livro "Lápis de Cor" (imagem da capa em anexo), uma denúncia contra o racismo, que vendeu mais de 3.000 cópias em 2 anos e foi distribuído para a rede pública de educação pela professora Anacy Paim, então secretária de educação do estado. Não faço essas tiras e livros esperando agradecimento por ter consciencia de minha função social e querer fazer minha parte, contribuindo para uma sociedade mais equilibrada e justa, mas me espanta como numa hora como essa, tantos se apressam em me condenar mas nunca para comentar o como é positivo para a auto-estima da garotada afro-descendente ler nessas histórias que não é preciso ser loiro para ser bem sucedido. Pra que, né?Admito que errei em não prever tamanha polêmica ao pintar de negro o tal figurante que faz o gato em tal tirinha e peço desculpas, mais uma vez, aos que se ofenderam com ela. Mas nunca, mesmo sabendo agora q deveria, passou por minha cabeça estar representando o povo negro como infrator. Pensei estar representando apenas um da imensa maioria negra do nosso estado. Mas errei por não imaginar, jamais, que essa leitura dos que me acusam seria possível. Errei por, sinceramente, tentar representar a pobreza que levou tal personagem a fazer o 'gato' com um personagem negro. Pensei estar fazendo uma crítica social ao mesmo tempo q falava de gato de energia. Mas compreendo agora como a leitura pode ter acontecido, só não posso fingir q não estou magoado com tamanha bordoada que desconsidera tudo que eu fiz antes e continuo fazendo com minhas tiras. Sempre tive orgulho de saber que não sou racista e carrego muito poucos preconceitos. Nunca me importei com a cor de pele das pessoas... Nem na hora de namorar, nem na hora de discutir, nem na hora de desenhar. Agora, me encontro triste, vou ter que começar a olhar para isso que, pra mim, sempre foi um detalhe bonito da diversidade humana, nada mais.

Obrigado pela lição aos que denunciaram meu 'terrível ato de racismo', embora não tenham sequer entrado em contato comigo antes para comunicarem minha falha (o endereço do meu site está em todas as contas: www.falamenino.com.br ). Sempre estive aberto a sugestões, dicas de histórias, sugestões de abordagem. Meus amigos judeus sempre contribuíram com idéias para as tiras do Leo, meu personagem judeu. Meus amigos gays sempre me trouxeram mtas idéias para minhas tiras sobre o tema. E por aí, vai. Não tenho fenótipo negro. Não sei o que é sentir na pele o racismo, todos os dias; não vivo com isso, 24 horas por dia. Posso apenas representar a perspectiva de quem se importa sinceramente com a questão e tenta fazer o melhor para ajudar a acabar com tais injustiças. Mas sou humano, cometo erros e os reconheço (como nem todos os humanos, sei). Ontem, um homem revoltado me acusou de racista e disse que "branco pode errar duas vezes, que tem sempre chance." Disse a ele que a tira foi revisada por mtas pessoas, inclusive negros. Mais uma vez, ele retrucou dizendo que "essa é uma típica fala do branco, que quando cai tenta sempre arrastar os negros ao seu lado". Quando se ouve coisas assim, tem-se muito pouco para responder.

Obrigado aos que repudiaram tal denúncia, espalhada por todos os cantos, por perceber o direcionamento perigoso das mesmas, conhecer meu trabalho e temerem por uma agressão maior a uma obra totalmente dedicada ao respeito. Respeito que é bom e minha inteligência também gosta.Meu carinho verdadeiro a todos,mas também estou pasmo e estarrecido, pois a luta contra todo tipo de preconceito tb é minha e faz mto tempo q a sociedade baiana sabe disso.

Carinho,

Luis Augusto.

Alguns Depoimentos:

"Conheço sua obra, companheiro, fortemente fincada no combate a todo tipo de preconceito, na defesa sem reservas dos direitos dos oprimidos. Este infeliz episódio, que, com certeza, você irá superar, ilustra o perigo que todos nós, que produzimos representações simbólicas, corremos, ao termos obras - textuais ou pictóricas - extraídas ou produzidas fora de um contexto. E para nós, jornalistas, que pretendemos representar as representações, o risco é mais sério ainda. "
Suzana Varjão (Jornalista, coordenadora do Movimento Estado de Paz).


" 'Aqueles que têm olhos para ver e ouvidos para ouvir', certamente,ainda que não conheçam bem o seu trabalho, não se darão por satisfeitos anteuma mensagem de alguém de mente estreita e preconceituosa, mergulharão emsua obra para investigar e assim compreender a dimensão da Turma do Lucas esua magnífica contribuição para a formção de novos e melhores conceitos.Esse fato lamentável, ao invés de afastar leitores, certamente, atrairámuitos novos parceiros para seu trabalho. Tenho certeza de que seu nomesairá fortalecido de tudo isto."
Liese Flórez

"Quero lhe prestar minha solidariedade em relação ao episódio da tira da conta da Coelba.
Quem lhe conhece e acompanha suas atividades(como eu) sabe que não existe nem nunca existiu em seus trabalhos qualquer manifestação que pudesse ser entendida como racista. Muito pelo contrário. Continue com seu grande trabalho educativo e criativo, que é tão admirado por tantas pessoas, entre as quais me incluo."
Nivaldo Lariú (autor do Dicionário de Baianês)

"Minha indignação se torna maior, uma vez que a tira acusada é justamente conhecida pro promover a diversidade, incluindo em seu rol de personagens cegos, surdos... ou melhor, deficientes visuais, auditivos... ou melhor, portadores de necessidades especiais... ou melhor... her... desculpem, mas não sei qual a moda politicamente correta do momento."
Djaman Barbosa


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